domingo, 27 de Dezembro de 2009

Descamação



Passivo e demorado, foi assim que se despiu da ordinária civilização com a qual se cobria, para afugentar os olhares dúbios dos mais atentos e as suas subtis provocações, que tantas vezes o incitaram a chover como balas, sobre aqueles sedentos caçadores de aberrações… aberrações como ele. Embora não soubesse ao certo o que realmente era, sabia que nele havia algo monstruosamente humano que lhe permitia a pertença à raça dos Homens, mas sabia, também, que a humanidade não era, primordialmente, a sua espécie e que estava tão perto do seu elemento, que quase conseguia senti-lo por debaixo das suas camadas mundanas. Aquela carne antiga e pútrida já de nada lhe servia, nem tão pouco aqueles ossos que tantas vezes se haviam partido, ou aquele sangue negro e tórrido que fervilhava como fogo, queimando-lhe a imaculabilidade… todo o seu corpo estava a ser substituído por uma estrutura semelhante à presente, porém mais resistente, maleável e fusível.



Que mais poderia alguém querer além da sua derradeira identidade?



A vida perdera-se na imensa negrura dos seus olhos e com ela havia levado os segredos inerentes à sua condição. Ele era, pois, um marginal que, e usando a literalidade deste termo, pelas margens desta terra vagueava, mentindo inocentemente, não por imbecilidade, mas por não saber a totalidade da verdade dos factos que faziam dele um indivíduo, mesmo que fosse de género indeterminado…



Tranquilo e autómato, foi assim que se lançou à cadeira e se curvou, de molde a posar os lacrimosos olhos no chão. “Tantas gretas” – pensou ele, enquanto desenhava mentalmente a madeira que o sustentava, sem poder deixar de considerar a hipótese que o mundo bem podia ser aquele solo e ele, uma das suas infindáveis gretas. De súbito as fendas encheram-se de encarnado, e ele sorriu tristemente: “Este é o meu Nilo. O meu rio de infortúnio”.



Ali se drenava todo o seu espírito. Quem mais sangraria como ele?



Suspenso na sua própria dor indolor, seguia com o olhar o trajecto veloz da sua seiva até à janela, o único foco que iluminava a parcialidade da sua alma. A brancura da luz era a única coisa que o reanimava do coma que era ser-se espectador da sua própria existência, por isso, sempre que a avistava, permanecia maravilhado no seu raio, de olhos fechados e coração aberto, esperançoso que esta lhe acalorasse das lágrimas. Que o tornasse mais… leve. De todas a vezes que havia estabelecido contacto com a “luz”, ficara com a sensação que nunca conseguira realmente comunicar com ela, apenas fora capaz de entrar numa conversa disfuncional, por telepatia, que culminava com o brutal embater do seu corpo no chão, sucedido por infernais espasmos debilitantes. Será que chegaria alcançar a “suprema comunicação”?



Nada era, aqui, o sinónimo de certo e tudo, o da incerteza.



Entretanto, a estranheza que sentia para consigo próprio, intensificara-se ao ponto de insuportabilidade! A vontade de rasgar a carne era incontornável, incontrolável! Mas cometer tal atrocidade não seria necessário, porque, assim que esse desejo atingiu o seu limite, a metamorfose começou: num só acto, o seu esterno foi violentamente sugado, juntamente com as costelas e medula, o que lhe proporcionou dores atrozes, exprimidas através de berros bestiais; as mãos, outrora ásperas, tornaram-se diáfanas, quase como que espectrais; os lábios fundiram-se com o paladar, o nariz com o aroma, e o olhar limpou-se do carvão que o pintava, dando lugar ao reflexo do tempo.



Parte humano, parte não humano, nadava ele no seu rio, transformando-se a cada braçada lancinante. Subitamente, inundou-o aquele tão ansiada leveza… e não, não foi pela variação do peso, mas sim pela nova estrutura que o cingia e elevava.



No chão ficou, para trás, o velho corpo. E nas alturas emergiu o que há já muito de lá se tentava soltar.





domingo, 20 de Dezembro de 2009

Eco Sensorial - Pequena memória de quem "foi"




Os meus olhos são doces. O meu odor é doce. As minhas palavras são doces.

Pena que tudo que doce é, eventualmente amargará.



Foi quando Morfeu me libertou dos seus braços, que eu me apercebi da minha (triste) figura humana. Estive tanto tempo no seu cárcere, que me esquecera até da minha própria espécie.

Embebida numa adrenalina puramente química, rasguei as pálpebras e, pela primeira vez, pude afirmar que pestanejei. Devo dizer que, até á data, nunca me sentira tão, tão… normal! Embora tudo me fosse exorbitantemente estranho, sentia saudades de – como se diz? – observar, melhor ainda, ver. Posto esse desejo, abri definitivamente os olhos e por lacónicos ensejos – que me souberam a crassos – avistei o nada que era o solo, o horizonte e o Sol, e com esse nada me maravilhei. No entanto, olvidara-me da fragilidade dos meus recém-olhos, mas a grande Estrela, não… Que fizeram eu, para ela me arrancar os olhos?! Não estaria ela ciente do que martírio pelo qual eu passara?! Até àquele momento apenas sabia traçar-me no negrume, aliada aos ruídos que ricocheteavam nas paredes, e sempre descartei a possibilidade de voltar a avistar uma luz que fosse, não porque estava ciente de que a claridade me cegaria – pois, na verdade, não estava - mas porque havia desistido de viver naquela condição de cobaia. Confrontada com a tragédia, comecei a sentir algo incomodativo, ensurdecedor, um sentimento físico e mental, de imenso caos infernal, que me incitava a segregar água dos olhos, todavia, não me lembrava como se fazia isso. Não me lembrava do que era o “chorar”, nem tão pouco de como se chorava.

Nada me era novo, mas tudo me era diferente.

De súbito ocorreu-me que tinha poder sobre as minhas cordas vocais e que podia emitir diferentes tons - uns mais graves, outros mais agudos. Tentei, por isso, formar pequenos sons com os quais pudesse comunicar, mesmo sabendo que ninguém me rodeava. Depois de alguma prática, considerei-me capaz de emitir um conjunto de símbolos sonoros, capaz de dominar a linguagem, e, como quem pela primeira vez falava, bramei as minhas primeira palavras! A sensação do timbre a fluir pela garganta era quimérica, como tal, determinei aquele experiência um sucesso e continuei a gritar aos ventos, com esperança que eles levassem a minha mensagem até à civilização! Até que, de tanto bramir, a voz se perdeu em mim e não mais quis sair…

Estava sem visão e sem fala. Em breve perderia também a audição. Sabia-o não por instinto, mas porque já esta ia desvanecendo. E de que me serviria ouvir, se nem sequer conseguia proferir uma lamúria rasgada?

domingo, 13 de Dezembro de 2009

Queixume

Fotografia e edição por Ana Dória






Sobre mim chovem balas de granizo ancião

que fazem da chuva sangue, e do sangue, coração

Todavia, este meu corpo não sente,

nem tão pouco pensais que ressente,

mas acreditai quando vos digo que não me sinto gente...

E é nessa condição ensurdecedora que me sinto,

e não pensais, nem por um segundo, que vos minto,

como a caricatura de um humano desajeitado

um ser mutante, ilusório e desconcertado,

rodeado por um mundo isolado e desolado!

Ai, se vós soubésseis como me esmorece a alma,

quando vê que as lágrimas estão já secas na palma

desta minha mão!

E quem sou eu para apelar à suprema compreensão?

Não tenho já rasto de pureza, dignidade ou razão...

Mas acreditai que não creio mais em mim nem nesta terra,

nem nas palavras de súplica que berra!

Acreditai que não creio nos olhares famintos por humildade,

nem nas acções em prol da aclamada santidade,

nem no eco monumental das (falsas) promessas da humanidade!

domingo, 6 de Dezembro de 2009

Introspecção




Fotografia e edição por Ana Dória



Um pequeno pensamento sobre…


Frequentemente, dou comigo a meditar sobre o conceito de introspecção e tudo o que lhe diz respeito. Dou comigo, deveras, a “introspectar” (se é que me permitem o uso deste termo inexistente). Estou ciente de que não sou nenhuma autoridade filosófica, nem tão pouco tenho vastos conhecimentos sobre psicologia que me permitam discursar com especialidade sobre o tema em questão, no entanto, falo por minha experiência e creio que estou no meu direito em fazê-lo.

É um facto que todos nós fazemos parte da correria infernal que a vida é, e, como tal, carecemos de conhecimento pessoal, de ciência sobre quem realmente somos, por isso, quando chegamos ao limite da nossa paciência ou, melhor dizendo, da nossa força emocional e espiritual, enveredamos em viagens íntimas de auto-observação. Nelas somos confrontados com as nossas idealizações reprimidas, ou seja, desejos, fantasias e ambições aparentemente impossíveis. É nessa altura que medimos os tais “prós e contras” e decidimos o rumo a tomar: ou aceitamos o objecto da introspecção ou o negamos – são estas as duas escolhas que nos são proporcionadas, e só podemos seleccionar uma.

Todavia, a negação apresenta como que duas tipologias, isto é, tanto pode ser consciente como inconsciente. O primeiro tipo manifesta-se quando, após a introspecção, o sujeito opta, conscienciosamente, negar a si próprio a sua natureza, seja ela qual for; o segundo tipo pronuncia-se por influência dos padrões sociais: a decisão é quase como que automática. Imaginemos que desde a nascença que o sujeito foi ensinado a reprimir uma certa ideia, logo, provavelmente nunca questionará o qual será o seu “mal”, limitando-se, simplesmente, a não aceitá-la. Ora ambas decisões carregam consigo consequências colossais, pois, na minha opinião de leiga, censurar o que nos é inato levará, somente, ao vazio da alma e, inevitavelmente, à sua morte.

No entanto, não olvidemos outra característica crucial, que, a maioria das vezes, determina a recusa ou admissão do objecto: a sua essência.

Surge, então, o primeiro de muitos dilemas adjacentes ao tema da auto-análise do Ser. Tomemos como exemplo o caso de homem que se vê, finalmente, afrontado com a sua derradeira identidade. Até aqui nenhum obstáculo se opõe, aliás, podemos até considerar que esse achado constitui uma feliz descoberta para o sujeito. Mas e se o seu verdadeiro Ser, que até à data fora como que um mistério para este homem, o impelisse a matar sem qualquer justificação? De que forma deveria ele agir? Será que ele deveria adoptar esta faceta, que lhe fora ocultada, de molde a sentir-se uno consigo próprio? Ou será que deveria negligencia-la e abafa-la? Ambas escolhas têm o seu devido preço - a primeira, vitimizaria inocentes; além disso, o sujeito não possui quaisquer direitos sobre a vida de outrem. A segunda, como já proferido interiormente, levá-lo-ia a um estado de caos espiritual, o que tornaria o objecto numa espécie de fantasma pendente, prendendo-o ao seu próprio horror.

De certa forma, não existe uma solução exacta, porque a íntima relação entre o sujeito e o objecto dificulta a compreensão da questão - não descuraremos a complexidade da mente humana e a sua relação com espaço circundante.

Podemos, porém, concluir que a introspecção é um poderoso mecanismo que tanto pode culminar numa dádiva, como numa maldição.

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

P/N


Fotografia e edição por Ana Dória


O olhar distante ditava mais do que a condição de não nativo.

Ditava, também, uma imensa vontade de lançar as lágrimas à inércia do rosto, só para poder sentir vida nos socalcos faciais, que este norte cavara em si.

E se das suas mãos, gretadas já, brotava a voz de um deus, não era graças a um devaneio lírico, mas sim a uma alma desolada.



ps: sem ideias...

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Obrigada, Ana Rita



1- Escrever uma lista com 8 características;

Feminina. Altruísta. Fria. Conservadora. Divertida. Intorvertida. Criativa. Iludida.


2- Convidar 8 bloggers para receber o selo;

Afonso Quintã
falta-me papel.

As opiniões de uma formiga sobre o (i)mundo que a rodeia.



3- Comentar no blog de quem lhe deu o selo;

4- Comentar no blog de quem escolheu.

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

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Foto por Ana Dória




Rasguei as silvas do corpo, como quem corta as ervas danadas do seu jardim, e verti toda minha seiva sobre a claridade ofuscante, com a esperança de obter uma reacção química que corroesse toda a nojice lá entranhada. Contudo, caí num tamanho alguidar de tenebrosa incerteza, que até o meu corpo se ressentiu, entoando um pequeno bramo da agonia:


A minha flor não desabrochou