Passivo e demorado, foi assim que se despiu da ordinária civilização com a qual se cobria, para afugentar os olhares dúbios dos mais atentos e as suas subtis provocações, que tantas vezes o incitaram a chover como balas, sobre aqueles sedentos caçadores de aberrações… aberrações como ele. Embora não soubesse ao certo o que realmente era, sabia que nele havia algo monstruosamente humano que lhe permitia a pertença à raça dos Homens, mas sabia, também, que a humanidade não era, primordialmente, a sua espécie e que estava tão perto do seu elemento, que quase conseguia senti-lo por debaixo das suas camadas mundanas. Aquela carne antiga e pútrida já de nada lhe servia, nem tão pouco aqueles ossos que tantas vezes se haviam partido, ou aquele sangue negro e tórrido que fervilhava como fogo, queimando-lhe a imaculabilidade… todo o seu corpo estava a ser substituído por uma estrutura semelhante à presente, porém mais resistente, maleável e fusível.
Que mais poderia alguém querer além da sua derradeira identidade?
A vida perdera-se na imensa negrura dos seus olhos e com ela havia levado os segredos inerentes à sua condição. Ele era, pois, um marginal que, e usando a literalidade deste termo, pelas margens desta terra vagueava, mentindo inocentemente, não por imbecilidade, mas por não saber a totalidade da verdade dos factos que faziam dele um indivíduo, mesmo que fosse de género indeterminado…
Tranquilo e autómato, foi assim que se lançou à cadeira e se curvou, de molde a posar os lacrimosos olhos no chão. “Tantas gretas” – pensou ele, enquanto desenhava mentalmente a madeira que o sustentava, sem poder deixar de considerar a hipótese que o mundo bem podia ser aquele solo e ele, uma das suas infindáveis gretas. De súbito as fendas encheram-se de encarnado, e ele sorriu tristemente: “Este é o meu Nilo. O meu rio de infortúnio”.
Ali se drenava todo o seu espírito. Quem mais sangraria como ele?
Suspenso na sua própria dor indolor, seguia com o olhar o trajecto veloz da sua seiva até à janela, o único foco que iluminava a parcialidade da sua alma. A brancura da luz era a única coisa que o reanimava do coma que era ser-se espectador da sua própria existência, por isso, sempre que a avistava, permanecia maravilhado no seu raio, de olhos fechados e coração aberto, esperançoso que esta lhe acalorasse das lágrimas. Que o tornasse mais… leve. De todas a vezes que havia estabelecido contacto com a “luz”, ficara com a sensação que nunca conseguira realmente comunicar com ela, apenas fora capaz de entrar numa conversa disfuncional, por telepatia, que culminava com o brutal embater do seu corpo no chão, sucedido por infernais espasmos debilitantes. Será que chegaria alcançar a “suprema comunicação”?
Nada era, aqui, o sinónimo de certo e tudo, o da incerteza.
Entretanto, a estranheza que sentia para consigo próprio, intensificara-se ao ponto de insuportabilidade! A vontade de rasgar a carne era incontornável, incontrolável! Mas cometer tal atrocidade não seria necessário, porque, assim que esse desejo atingiu o seu limite, a metamorfose começou: num só acto, o seu esterno foi violentamente sugado, juntamente com as costelas e medula, o que lhe proporcionou dores atrozes, exprimidas através de berros bestiais; as mãos, outrora ásperas, tornaram-se diáfanas, quase como que espectrais; os lábios fundiram-se com o paladar, o nariz com o aroma, e o olhar limpou-se do carvão que o pintava, dando lugar ao reflexo do tempo.
Parte humano, parte não humano, nadava ele no seu rio, transformando-se a cada braçada lancinante. Subitamente, inundou-o aquele tão ansiada leveza… e não, não foi pela variação do peso, mas sim pela nova estrutura que o cingia e elevava.
No chão ficou, para trás, o velho corpo. E nas alturas emergiu o que há já muito de lá se tentava soltar.

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